O "papo reto" sobre a manutenção.

Como bons brasileiros, temos um talento especial para procrastinar. Grande parte de nós deixa tudo para a última hora — ou pior, só lembra do problema quando a vaca já foi para o brejo.

O famoso “já-já eu faço” não está restrito aos escritórios, às tarefas da escola, da faculdade ou à arrumação da casa. Ele está profundamente enraizado naquilo que deveria ser sagrado: a manutenção preventiva. E, nesse quesito, quase 100% das indústrias brasileiras falham — o setor gráfico incluído.

Uma simples lubrificação, que consiste apenas em aplicar óleo ou graxa em uma corrente ou engrenagem. A troca de uma bucha gasta. A substituição de um parafuso com a cabeça desgastada ou rosca danificada. Tudo isso é empurrado para depois. Só trocamos quando a gambiarra já não dá conta de segurar o problema.

Aliás, a gambiarra é o “anestésico” antes de tudo desandar.

Grande parte das paradas de máquina começa com uma solução paliativa que o “mecânico” ou “operador” acredita que vai resolver. Ao longo dos anos prestando consultoria e treinamentos, já vi de tudo: arames segurando eixos, durex mantendo estruturas inteiras no lugar. E as mais perigosas sempre envolvem a parte elétrica — parece que alguns operadores gostam de viver perigosamente. Um choque, uma descarga elétrica ou, como dizia um impressor amigo meu, “um curto simisquito”, pode causar desde a paralisação total do equipamento até incêndio e morte.

Já encontrei cabos trifásicos emendados e “protegidos” com fita crepe, durex, dupla face e até tiras de borracha de câmara de bicicleta. Parece absurdo, mas é real.

Crostas de tinta impedindo o rosqueamento de mancais ou travas são comuns. Nesse caso, o problema não é mecânico, é falta de limpeza. Mangueiras de ar furadas ou engates vazando — além do chiado irritante — reduzem pressão e eficiência. Botoeiras quebradas, trincadas ou sem lentes das luzes piloto comprometem a segurança e o funcionamento.

Rolamentos autocompensadores com esferas faltando são campeões de ocorrência. O correto é substituir assim que o problema for identificado. Tecnicamente, um rolamento pode até funcionar com duas ou mais esferas faltando, dependendo de outros fatores, mas isso não é recomendável. Constatou o problema? Troque.

Buchas também exigem atenção. Embora muitas máquinas modernas não as utilizem em partes críticas como porta clichês, anilox e pescador, quando presentes, precisam de lubrificação constante. É comum ficarem com folgas e até ovalizadas, comprometendo a precisão e os ajustes.

Então, qual é a solução?

A solução é simples: pensar como a aviação. Pilotos e companhias aéreas só operam depois de verificar tudo. E nós deveríamos fazer o mesmo.

Antes de ligar a máquina, faça um checklist completo:

  • nível de óleo

  • rolamentos

  • folgas

  • aperto de parafusos críticos

  • vazamentos

  • encaixes de mangueiras

  • falhas na fiação e nas conexões elétricas

  • lâmpadas queimadas

  • botoeiras quebradas

  • limpeza da área de trabalho

  • retirada de objetos que atrapalhem a circulação

  • níveis de tinta

  • funcionamento de bombas

  • vazamentos em sistemas encapsulados

  • falhas em mangueiras de alimentação

  • travamento de bobinas e eixos desbobinadores

  • vazamento em mandril

Identificou um problema? Se não puder corrigir com as peças disponíveis — e dentro da sua habilidade — acione a equipe de manutenção. Registre no livro de ocorrências e solicite apoio técnico.

Só assim você terá uma máquina funcional, segura e capaz de entregar qualidade.

Sou Robson Yuri, consultor e especialista em flexografia, com mais de 35 anos de experiência em processos de banda estreita e banda larga. Atuo no desenvolvimento técnico, otimização de processos, treinamento de equipes e solução de problemas complexos em impressão flexográfica.


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