A tecnologia de distribuição uniforme de tintas em flexografia! (parte 01)


Na flexografia, desde sua criação, o grande desafio sempre foi garantir uma distribuição uniforme e consistente da tinta, independentemente da velocidade de produção.

Nos primórdios do processo, a tinta — líquida no sistema flexográfico — era transferida por meio de dois rolos de borracha: o pescador e o entintador. Esse conjunto funcionava adequadamente em velocidades médias e com tintas à base de anilina, muito utilizadas na impressão de sacos e papéis fantasia. No entanto, qualquer variação de velocidade tornava evidente um problema crítico: excesso ou falta de tinta, resultando em falhas de cobertura e grande instabilidade no padrão de cor. Controlar a consistência cromática era praticamente impossível — até porque, naquela época, esse controle ainda não era uma preocupação central.

Mas por que isso acontecia?

Para compreender o fenômeno, precisamos recorrer à física e à mecânica dos fluidos. Ser impressor flexográfico não é apenas apertar botões ou ajustar clichês em registro; envolve também entender princípios físicos e matemáticos que explicam os problemas e permitem encontrar soluções.

Quando a velocidade aumenta, o volume de tinta carregado entre os rolos gera uma força hidráulica que tende a afastá-los micrometricamente. Como os rolos trabalham sob baixa pressão, esse afastamento cria um espaço maior entre o pescador e o entintador, resultando em uma película de tinta mais espessa. Já quando a velocidade diminui, a força hidráulica reduz-se e os rolos retornam à posição originalmente ajustada pelo operador.

Ao longo dos anos, o estudo desses fenômenos permitiu adaptar e corrigir diversos problemas por meio de soluções mecânicas simples. Entre elas, destacam-se a variação de diâmetro entre os rolos, o uso de rolos pescadores e entintadores com características específicas e a aplicação de engrenagens diferenciadas — como engrenagens do tomador com maior número de dentes e do entintador com menor número. Esse conjunto fazia com que o rolo pescador “patinasse” sobre o rolo entintador, gerando uma leve raspagem e reduzindo significativamente a sensibilidade às variações de velocidade.

Entretanto, surgiu um novo problema: o uso de rolos de borracha como entintadores mostrou-se ineficiente. Devido às propriedades moleculares da borracha, características como dureza inadequada, rachaduras, desgaste, deformações, ressecamento e outros defeitos eram inevitáveis. Esses problemas eram transferidos diretamente para a superfície dos clichês — especialmente em áreas chapadas — e, consequentemente, apareciam também na impressão final.

Nesse momento surgiu a ideia de utilizar um cilindro de aço, cromado e retificado. Essa solução proporcionou uma superfície muito mais estável, paralela e com menos problemas em comparação aos rolos de borracha. Parte das dificuldades relacionadas à distribuição uniforme da tinta foi resolvida, assim como a transferência de defeitos, deformações e até a alteração do comportamento da borracha causada pela tinta e seus solventes.

Entretanto, um novo desafio apareceu. O cromo, especialmente quando polido, não oferece uma superfície “amigável” para a tinta. A afinidade entre ambos era baixa: a camada de tinta não se formava de maneira adequada e variava conforme o solvente, a viscosidade e até a pressão entre o rolo pescador de borracha e o rolo entintador cromado. Como consequência, as impressões tornaram-se mais fracas, com deposição insuficiente de tinta e camadas visivelmente pobres.

Alguém — não se sabe exatamente quem — teve uma ideia que, muito provavelmente, surgiu em alguma empresa que produzia embalagens ou máquinas pelo processo de rotogravura. Essa é a tese mais plausível que desenvolvi. O raciocínio foi simples e brilhante:

Por que não aplicar uma retícula de ponto quadrado, como um grande chapado em todo o cilindro entintador, da mesma forma que fazemos na rotogravura? A diferença é que, neste caso, a tinta seria transferida para o clichê, e não diretamente para o substrato.

Essa ideia revolucionou o sistema de entintagem e a distribuição de tinta na flexografia. Pela primeira vez, tornou-se possível obter uma camada mais uniforme, com volume controlado e muito menos sensível às variações de velocidade. Os alvéolos gravados no cilindro eram preenchidos com tinta e, por capilaridade, transferiam o conteúdo para o clichê de forma consistente — tanto em áreas chapadas quanto em retículas.

Nascia ali a capacidade de controlar a película de tinta não mais por pressão, velocidade ou abertura entre rolo pescador e rolo entintador, mas sim pela geometria dos alvéolos: sua abertura, frequência e profundidade de gravação. Esse princípio é a base do que conhecemos hoje como anilox.

Foi nesse momento que surgiu o primeiro tipo de anilox utilizado na flexografia: uma adaptação de um cilindro de rotogravura chapada, empregada para distribuir tinta sobre o clichê. Esse conceito inicial marcou o ponto de partida para a evolução dos sistemas de entintagem na impressão flexográfica.

Fique atento às minhas publicações aqui. Ainda vem a segunda parte dessa história — a continuidade da evolução do anilox e o desenvolvimento dos sistemas de entintagem que transformaram a flexografia ao longo dos anos..

Sou Robson Yuri, consultor e especialista em flexografia, com mais de 35 anos de experiência em processos de banda estreita e banda larga. Atuo no desenvolvimento técnico, otimização de processos, treinamento de equipes e solução de problemas complexos em impressão flexográfica.

Para contato e contratação: flexonews.br@gmail.com


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